Escudo das Américas: Proposta de Trump com 14 nações contempla cartel fictício
No dia inaugural da Assembleia Geral da ONU, o governo de Donald Trump divulgou um comunicado em conjunto com 14 nações latino-americanas – Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago – que anunciava uma colaboração para enfrentar grupos que os Estados Unidos identificaram como terroristas. Entre essas organizações estão as brasileiras PCC e CV.
Antes disso, durante seu pronunciamento na ONU, Trump declarou que os cartéis de drogas “representam o Estado Islâmico do hemisfério” e que seus integrantes “devem ser executados, exilados ou detidos como inimigos em combate”.
Um nome que se destaca nesse contexto é o Cartel de Los Soles, que figura entre as 24 entidades “narcoterroristas” a serem combatidas.
Contudo, o Cartel de Los Soles não é uma entidade real. A expressão é utilizada pelos venezuelanos para descrever a corrupção entre militares – semelhante a termos como “petralhas” ou “bolsominions”.
Conforme revelado por uma reportagem no início do ano, a narrativa sobre a existência do Cartel de Los Soles foi fabricada pelo Departamento de Justiça durante o primeiro mandato de Donald Trump. O intuito era justificar a acusação criminal contra Nicolás Maduro e mais 14 membros do governo da Venezuela. As alegações afirmavam que Maduro “auxiliou na administração e eventualmente na liderança do Cartel de los Soles enquanto consolidava seu poder na Venezuela” e que “diferentemente da maioria das organizações narcotraficantes na América do Sul e Central que tentaram reduzir a importação de drogas para os EUA, o Cartel de los Soles priorizou usar cocaína como uma arma contra os Estados Unidos ao importar o máximo possível”.
Em novembro de 2025, essa suposta organização foi oficialmente designada pelo Departamento de Estado americano como uma Organização Terrorista Estrangeira. Essa categorização conferiu um respaldo legal à invasão militar da Venezuela.
No entanto, nem mesmo o Departamento de Justiça possui convicção plena sobre as alegações referentes à existência do Cartel. No primeiro indiciamento contra Maduro em 2020, ele foi acusado de “liderar o cartel de Los Soles”, sendo mencionado 32 vezes. Contudo, no indiciamento final emitido após sua captura, a entidade foi citada apenas duas vezes e descrita como um “sistema de patronagem controlado pelos poderosos” – não mais como uma organização envolvida no tráfico.
Por que isso é relevante?
- O sequestro do ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro foi legitimado pelos Estados Unidos com base em sua suposta conexão com o tráfico de drogas.
- A operação norte-americana fundamentou-se na classificação de grupos criminosos venezuelanos como terroristas pelos próprios EUA. Essa abordagem é semelhante à utilizada no caso do PCC e CV em junho deste ano.
A Convenção contra o Crime Organizado Transnacional da ONU possui definições claras sobre o que constitui uma organização criminosa internacional: deve haver uma estrutura organizada com hierarquia e divisão funcional; autonomia em relação ao Estado; além da comprovação de sua existência através de investigações policiais. O Cartel de Los Soles não se encaixa em nenhuma dessas características.
A ampla aceitação dessa entidade inexistente pelos 14 países integrantes do Escudo das Américas evidencia a influência do governo dos EUA nas ações desse grupo.
O que promete a aliança do Escudo das Américas
Os 14 países membros do Escudo das Américas, iniciativa lançada em março deste ano e governados por aliados conservadores de Trump na região, prometeram implementar medidas como “congelamento de ativos; restrições imigratórias e para obtenção de vistos para membros e apoiadores dessas organizações; além da responsabilização criminal daqueles que fornecerem apoio material – incluindo logístico – a tais entidades”.
É importante ressaltar que México e Brasil, os dois maiores países ricos da América Latina, não estão incluídos no Escudo. Ambos enfrentam pressões políticas dos EUA visando enfraquecer seus governos progressistas.
O grupo também planeja solicitar à OEA (Organização dos Estados Americanos) uma resolução para “promover e facilitar ações coletivas contra organizações narcoterroristas dentro dos parâmetros do Tratado do Rio”. Este tratado assinado em 1947 considera qualquer ataque armado contra um país americano como um ataque contra todos os países da região. A proposta parece visar militarizar efetivamente o combate ao narcotráfico sob a liderança dos EUA.
Fulton Armstrong, ex-diretor para assuntos interamericanos do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, opina que esse tipo de iniciativa “não é eficaz” e pode intensificar tensões regionais.
“À medida que se torna evidente que rotular criminosos como terroristas e atacá-los militarmente não traz resultados positivos, é natural que os países busquem culpados externos – incluindo seus vizinhos. Um exemplo clássico foi a Colômbia, que produz e trafica grandes quantidades mas transfere a responsabilidade à Venezuela. Os Estados Unidos culpam esses países pela questão das drogas enquanto consomem substâncias provenientes da América Central e México. A maior parte das drogas destinadas ao Brasil tem como alvo final a Europa; mesmo assim Washington reserva-se o direito de acusar o Brasil por não ser um parceiro adequado nas políticas americanas. A rotulação como terrorista politiza a situação e agrava as tensões entre vizinhos”, explica ele.
Armstrong acredita também que a militarização da Guerra às Drogas falhou no passado: “Gastamos 16 bilhões no Plano Colômbia e a produção continua aumentando sem controle. Além disso, essa estratégia eleva os níveis de violência afetando toda a sociedade – como demonstrado no México e na América Central. Chamar criminosos de ‘terroristas’ pode ser conveniente politicamente mas desastroso operacionalmente”.
Por sua vez, o governo brasileiro resiste à ideia de rotular organizações como CV e PCC como terroristas porque isso permitiria intervenções dos EUA no sistema financeiro nacional além da possibilidade de ações militares. Em um alerta recente emitido pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), foi destacado que o risco de interferência norte-americana no Brasil atingiu patamar “crítico”, especialmente devido à designação do PCC e CV como terroristas.
Após sanções impostas a indivíduos e empresas brasileiras em julho por laços com o PCC, a Abin afirmou que isso representa uma mudança significativa na escalada das sanções americanas contra o país. Segundo eles, essa interferência externa ocorre maneira “gradual” articulada com um enquadramento legal visando construir uma narrativa sobre atuação transnacional dos criminosos vinculando-os ao sistema financeiro estadunidense.
Dessa forma, os EUA ampliam seu potencial para impactar bancos brasileiros, fintechs e empresas locais”, conclui a Abin.
