Lula e Trump: Conflito de Ideias em Discursos Opostos na ONU
Na terça-feira, 22 de setembro, durante a abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma declaração marcante: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Além de ser um componente de sua campanha eleitoral, essa afirmação parecia ter como alvo específico o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Os discursos de ambos os líderes ocorreram na 81ª edição do evento que reúne representantes de 193 países e evidenciaram visões bastante distintas, muitas vezes em desacordo total. Neste momento, Lula busca sua reeleição enquanto Trump se prepara para as eleições de meio de mandato nos EUA, que definirão novos membros da Câmara e do Senado.
Curiosamente, nenhum dos dois mencionou diretamente o outro em seus discursos. Lula optou por recados sutis direcionados ao republicano, enquanto Trump ignorou completamente o Brasil, preferindo criticar ou elogiar outras nações.
Lula critica guerras enquanto Trump exalta ações militares dos EUA
Lula abriu seu discurso com uma crítica contundente à atuação das Nações Unidas. “A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra”, afirmou. O presidente brasileiro apontou que o poder de veto exercido pelas grandes potências no Conselho de Segurança é responsável por muitos dos problemas enfrentados atualmente.
“Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava sobre o alto custo que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício original da Carta da ONU conferiu às grandes potências um privilégio insensato”, argumentou. O Conselho de Segurança conta com 15 membros, sendo cinco deles permanentes e com direito a veto: China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia.
Momentos depois, Trump expressou gratidão ao Conselho de Segurança por sua condenação aos “ataques terroristas do Irã” contra embarcações comerciais. Ele afirmou que essa resolução foi a mais apoiada na história do órgão e destacou que a marinha americana já havia retirado “mais de um bilhão” de barris de petróleo do Estreito de Ormuz, contribuindo para a redução dos preços de combustíveis fósseis.
Enquanto isso, Lula apresentou uma perspectiva diferente: “O Estreito de Ormuz se transformou em trincheira da guerra quando deveria ser uma passagem vital para o comércio internacional. Famílias ao redor do mundo arcam com os altos preços dos combustíveis, fertilizantes e alimentos”.
Por que isso importa?
- A Assembleia-Geral da ONU é um importante palco para discussões internacionais. Este ano marca a décima vez que Lula abre a conferência.
- O evento ocorre em Nova York em meio a tensões entre Brasil e Estados Unidos devido às alegações sobre tentativas de interferência nas eleições brasileiras por parte de Donald Trump.
As divergências nas visões também resultaram em frases impactantes que serão utilizadas nas campanhas eleitorais. Enquanto Lula clamava pela necessidade de intervenções diplomáticas nos conflitos e afirmava que “a guerra não é uma continuação da política por outros meios; é a falência total da política”, Trump enfatizava sua abordagem: “enquanto outros falam, eu ajo. Eles falaram sobre paz, eu fiz a paz”, disse ele.
Trump ainda anunciou que os Estados Unidos estão construindo 18 fábricas para produção de munições com grandes empresas do setor bélico e que em breve poderão enviar mísseis e munições diversos para seus aliados.
A situação em Gaza foi abordada pelos dois presidentes sob ângulos totalmente opostos. Trump afirmou que na assembleia da ONU em 2025 havia uma guerra brutal em Gaza com reféns israelenses ainda presos nos “túneis do [grupo palestino] Hamas”, mas agora alegou que tudo estava resolvido e os reféns haviam retornado, salvando “milhares de vidas desconhecidas”.
Por outro lado, Lula destacou as consequências devastadoras do conflito: “Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio promovido pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”, acrescentando que “civis israelenses pagaram o preço pela radicalização e pela intolerância dos atos terroristas do Hamas”.
Tribunal Internacional: Lula clama por ação; Trump busca esvaziar
Neste ponto, outra divergência significativa emergiu. Lula argumentou que se as situações em Gaza e na Cisjordânia continuarem impunes devido à perseguição aos integrantes do Tribunal Penal Internacional (ICC), não haverá justiça.
Em contraste, Trump deixou claro seu desinteresse pela investigação ou punição dos membros das Forças Armadas americanas pelo ICC. Em seu discurso, chamou essa corte de “antiamericana” e sem jurisdição sobre os Estados Unidos, pedindo ainda que todos os países associados à instituição se retirem imediatamente.
Interferência versus Soberania
Um dos pontos centrais do desacordo entre Lula e Trump foi a interferência norte-americana nas políticas latino-americanas.
Trump comemorou durante seu discurso um acordo com a Dinamarca que concede aos Estados Unidos controle sobre a segurança daquele território. Ele também anunciou planos para construir duas bases militares lá, ressaltando que adversários dos EUA não poderão estabelecer presença militar no local sem consentimento do governo americano.
Este acordo foi firmado logo após a saída de Trump da Assembleia. Durante a cerimônia, Mette Frederiksen, primeira-ministra dinamarquesa, afirmou que trata-se de um pacto benéfico para Groenlândia, Dinamarca, Otan (Organização do Atlântico Norte) e Europa como um todo.
Na América Latina, Trump citou como exemplo bem-sucedido sua intervenção militar no sequestro do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, chamando-o de “verdadeiro criminoso”. Ele celebrou a libertação de vários políticos após essa ação militar e um acordo sobre produção petrolífera na Venezuela., segundo ele garantindo aos EUA 60% do petróleo produzido mundialmente.
Referente a Cuba, Trump afirmou que Marco Rubio está negociando para derrubar o regime atual no país — considerado por ele falido — assegurando que esse regime coordena movimentos radicais dentro dos Estados Unidos há décadas e afirmando categoricamente que “o comunismo” jamais alcançará o país.
Em contrapartida, Lula repudiou veementemente as intervenções na região sem mencionar diretamente os EUA ou Trump. “Estamos novamente assistindo à ingerência externa nos processos eleitorais. A divisão mundial em zonas de influência e ações neocoloniais visando recursos estratégicos são gestos anacrônicos”, declarou.
O presidente brasileiro ainda frisou que “o povo venezuelano deve decidir seu próprio futuro”. Referente a Cuba, Lula criticou duramente o embargo econômico e o cerco energético ao país como sendo ilegais; além disso declarou estar ciente da “punção coletiva imposta sobre 10 milhões de pessoas”.
Regulação da Inteligência Artificial e das big techs
Enquanto Lula defendeu urgentemente a regulação relacionada à inteligência artificial, Donald Trump manifestou claramente sua intenção oposta: ele deseja promover essa tecnologia — agora chamada por ele mesmo como “superinteligência”.
Para Lula,“seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das Big Techs e da Inteligência Artificial. Um pequeno grupo elitista quer ressuscitar uma versão digital neoliberal sem regras nem transparência”. Ele citou o papa Leão 14 ao afirmar que “as decisões tecnológicas devem sempre ser acompanhadas pela consciência e responsabilidade”.
Lula também criticou as empresas envolvidas com apostas online durante esse trecho do discurso: “Empresas cientes dos riscos associados transferem às famílias a tarefa impossível de lidar com os algoritmos. A indústria bilionária das BETs transforma vícios em lucro. Sua rápida disseminação está endividando famílias inteiras.” O Brasil não aceitará esse modelo comercial.”
Trump optou por utilizar desinformação acerca das mudanças climáticas como defesa para as empresas tecnológicas. “As mesmas pessoas disseram que todos morreriam em 12 anos devido às mudanças climáticas”, declarou Trump; “agora dizem que inteligência artificial vai nos matar ou atacar-nos.” Além disso mencionou: “O planeta não estava pegando fogo; ninguém morreu.”
Pix, tarifas e feminicídio
Durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, Lula aproveitou para enviar mensagens diretas ao líder americano enquanto destacava aspectos relevantes à sua campanha pela reeleição. Ele defendeu o sistema financeiro digital conhecido como Pix e assegurou: “não cederemos às pressões das multinacionais” em relação à tecnologia.
O tema das tarifas também foi mencionado indiretamente no discurso quando disse: “Temos autoridade moral para rejeitar medidas protecionistas disfarçadas como preocupação ambiental.” As alegações feitas pelos EUA relacionadas ao aumento das tarifas sobre produtos brasileiros estavam ligadas à falta efetiva no combate ao desmatamento na Amazônia. Com isso, Lula fez questão destacar conquistas dessa esfera: “Continuaremos reduzindo o desmatamento; ele caiu pela metade na Amazônia alcançando seu menor nível nos últimos 11 anos.”
Defendendo soberania nacional,, Lula também ressaltou: mudar não significa retroceder nem “reeditar teorias racistas ou submissão feminina”, ou “recolonizar o Sul Global”.
Num apelo aos eleitores brasileiros durante seu pronunciamento na assembleia , ele pediu apoio à causa por um “país livre do feminicídio onde nenhuma mulher viva sob ameaça à violência dentro ou fora de casa”. Esse apelo foi recebido com aplausos pelos líderes presentes no evento.
