Implementação do “Modelo Bukele” no Brasil poderia resultar na prisão de 4 milhões de cidadãos

Implementação do “Modelo Bukele” no Brasil poderia resultar na prisão de 4 milhões de cidadãos

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Durante o festival Piauí, o jornalista Carlos Dada, fundador do site El Faro de El Salvador, compartilhou uma anedota intrigante.

Ele participava de um debate na Europa sobre a política de segurança pública implementada pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Durante essa discussão, um empresário brasileiro o interrompeu afirmando: “Precisamos de um Bukele no Brasil”.

Dada, fluente em português e familiarizado com as questões brasileiras, pediu esclarecimentos adicionais. “Qual é o real problema que enfrentamos na segurança pública?” O empresário respondeu que as favelas no Brasil, assim como as comunidades empobrecidas em El Salvador, estão sob o controle de grupos criminosos. O jornalista então sugeriu: “Então a solução é simples. Baste bombardear as favelas”. O brasileiro ficou chocado e contra-argumentou: “Mas isso não é viável”. “Por quê?”, inquiriu Dada. “Porque mataríamos pessoas inocentes”.

“Pronto, então você já entendeu o que é o modelo Bukele”.

Carlos Dada tem sido meu amigo desde os primórdios da Agência Pública, e possui uma compreensão profunda do que realmente significa o “modelo Bukele”, amplamente promovido por diversos políticos da direita. À frente do El Faro, reconhecido como o primeiro site jornalístico da América Central e um dos mais condecorados da região, ele observou como a taxa de encarceramento em seu país se tornou a maior do mundo em poucos anos.

Atualmente, 1 em cada 50 salvadorenhos está atrás das grades, totalizando cerca de 120 mil pessoas em uma população de 6 milhões. Se essa proporção fosse aplicada ao Brasil, seriam mais de 4 milhões de brasileiros na prisão. No momento, o Brasil abriga mais de 960 mil detentos, ocupando a terceira posição no ranking global de populações carcerárias.

O “modelo Bukele” encontra respaldo entre empresários ligados à Fiesp, que recentemente organizou um evento com candidatos da direita. Entre eles estavam Sérgio Moro, ex-juiz e atual candidato ao governo do Paraná pelo PL, e Guilherme Derrite (PP), postulante ao Senado por São Paulo. Durante esse encontro, ouviram as palavras do ministro de Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro. Paulo Skaf, presidente da Fiesp, declarou: “Precisamos apoiar qualquer nova administração para implementar as transformações necessárias no Brasil e proporcionar segurança à população”, expressando seu desejo por um “novo governo”.

O que muitos empresários paulistanos ignoram é que a aparente eficácia do governo Bukele na redução imediata da criminalidade não resulta de um plano excepcional, mas sim de acordos estabelecidos com líderes das organizações criminosas mais notórias do país, como a Mara Salvatrucha. Essa informação foi revelada por Carlos Dada e sua equipe.

“Esses acordos incluíram a libertação clandestina e ilegal de alguns chefes já encarcerados. Além disso, foram feitas concessões nas prisões de segurança máxima. Os familiares podiam visitá-los livremente; tinham mais horas livres e frequentemente eram levados para hospitais onde se reuniam com seus comparsas”, detalha Dada. Como contrapartida, os criminosos prometeram reduzir os homicídios e assegurar votos para Bukele em suas comunidades.

A equipe do El Faro recebeu informações confidenciais mostrando que essas “saidinhas” dos líderes delinquentes tornaram-se muito mais frequentes e acompanhadas por visitas regulares. Além disso, obtiveram gravações em que um ministro de Bukele admite ter retirado um chefe do crime conhecido como Crook da prisão e transportado até a Guatemala em seu carro. Esse deslocamento foi registrado por uma fonte inesperada: durante todo o trajeto, a namorada do criminoso postou fotos no Instagram tentando disfarçar sua presença; porém suas tatuagens eram evidentes”, relata Dada.

A situação tornou-se ainda mais explícita quando alguns desses líderes foram presos no México e extraditados aos Estados Unidos. A investigação conduzida por Dada revelou que até mesmo a justiça americana favoreceu esses indivíduos – a pedido do governo Trump.

“Os criminosos estavam prestes a ser julgados nos EUA; alguns concordaram em se tornar testemunhas protegidas e relataram esse pacto com Bukele. Então veio um Fast Forward. Trump assume a presidência nos Estados Unidos; Bukele lhe oferece instalações para imigrantes indesejados e ambos se tornam grandes aliados”, prossegue Dada. 

Logo nas primeiras remessas de imigrantes venezuelanos enviados para El Salvador, jornalistas do El Faro notaram um preso que não pertencia ao grupo venezuelano.

“Você se recorda daquele famoso vídeo onde um avião aterrissa e os venezuelanos são recebidos em San Salvador? Eles são submetidos a cortes de cabelo e levados algemados? Todos nós assistimos essa cena mundialmente; entretanto identificamos algo incomum: entre esses venezuelanos havia alguém conhecido por suas tatuagens – era um dos doze membros da Mara Salvatrucha capturados”, revela Dada. 

Ao examinar documentos relacionados ao caso, descobriram que o procurador-geral da Justiça – equivalente ao nosso Ministro da Justiça – solicitou ao juiz federal a suspensão das acusações contra esse criminoso alegando interesses diplomáticos.

“É inacreditável o que ocorreu!”, exclamou ele. 

A partir dessas revelações impactantes,Dada e os jornalistas do El Faro começaram a ser alvo de perseguições por parte do governo Bukele. Inicialmente enfrentaram espionagem: seus celulares foram invadidos utilizando software israelense Pegasus; drones foram enviados para monitorar suas residências; agentes secretos foram colocados na porta dos seus lares. Em seguida surgiram ameaças anônimas incluindo ameaças de morte e ataques com carro-bomba. Bukele ainda acusou-os publicamente de lavagem de dinheiro e realizou auditorias fiscalizando evasão tributária antes de começar a embargar propriedades dos sócios envolvidos. Em determinado momento eles receberam alertas sobre não retornarem ao país sob pena de prisão.

No presente momento,toda a equipe redacional encontra-se fora do território salvadorenho. Até agora, aproximadamente 50 jornalistas já deixaram El Salvador devido à pressão governamental.

Essa situação é uma consequência direta do “modelo Bukele”, que instaurou um estado de exceção renovado mais de cinquenta vezes , conferindo plenos poderes ao presidente sobre as forças armadas. Com isso qualquer policial pode prender qualquer indivíduo sem necessidade de ordem judicial,e imediatamente essa pessoa é levada para uma das prisões disponíveis no país. 

A defesa legal deixou de existir.

“Se Bukele exerce controle sobre o Poder Legislativo,Poder Judiciário,Poder Executivo,a Procuradoria-Geral da República,a Defensoria dos Direitos Humanos,a Polícia e as Forças Armadas,o fazendo acima da legislação vigente,a verdade é que cabe somente a ele decidir quem é considerado criminoso ou não”, resume Dada.

Durante uma conversa extensa com duração superior a uma hora,Dada detalhou outros aspectos alarmantes desse chamado “modelo Bukele”, como tortura resultando na morte de mais de 400 indivíduos nas prisões – falecendo devido à brutalidade física – além das audiências massivas onde juízes avaliam entre 100 ou 200 detentos simultaneamente.

Histórias aterrorizantes emergem dessa realidade: houve casos em que homens foram presos simplesmente por ficarem nervosos diante da abordagem policial; numa pequena cidade uma cooperativa local foi denunciada pela concorrente rival resultando na prisão coletiva dos taxistas envolvidos como se fossem delinquentes comuns.

Diante disso,Dada expressou sua surpresa com o evento realizado pela Fiesp,o qual assistiu integralmente via YouTube.Por ser admirador do Brasil e acompanhar atentamente nossa política,destacou sua preocupação ao perceber que após uma apresentação onde não foi exposto o verdadeiro modelo Bukele mas sim aquilo que desejavam vender,o discurso tenha sido tão bem recebido pela plateia.”

“É uma imagem criada por uma competente equipe publicitária,o que chamam erroneamente ‘modelo Bukele’. O ministro apresentou sua visão nesse contexto bíblico,sugerindo uma batalha entre forças do bem contra forças malignas”, conclui Dada.

Surpreendeu-o também os aplausos calorosos vindos daquela plateia tão distinta.”O meu entendimento é que isso deveria servir como alerta para todos”.