Lula 4: O Caminho para um Futuro Raiz?

Lula 4: O Caminho para um Futuro Raiz?

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Na noite de 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em seu discurso de vitória, anunciou que em seu quarto mandato adotará uma nova abordagem de governança. Isso implica um compromisso com uma comunicação mais efetiva com a população, dando continuidade ao êxito das estratégias digitais e de mobilização observadas durante o segundo turno das eleições. Surge a reflexão: será que esse novo mandato poderá também trazer inovações significativas nas áreas econômica e ambiental? É viável avançar em um projeto socioambiental que preserve nossos biomas e beneficie as comunidades indígenas?

Durante a campanha, Lula enfatizou a importância da redução do desmatamento, do enfrentamento das mudanças climáticas e da proteção dos direitos indígenas. Isso contrasta fortemente com o projeto do bolsonarismo, que negava o direito à demarcação dos territórios indígenas e almejava desmantelar a legislação ambiental. Análises realizadas por jornalistas e ativistas sobre os programas de governo dos candidatos do PT e do PL evidenciaram várias menções aos temas socioambientais no plano petista, enquanto as propostas de Flávio Bolsonaro praticamente não abordaram esses assuntos.

Portanto, acredito que a partir de janeiro de 2027 existem boas perspectivas para avanços nas políticas executivas. A trajetória brasileira na redução do desmatamento posiciona o país como um líder na transição ecológica. As previsões indicam que é possível eliminar as derrubadas ilegais na Amazônia até 2030. No entanto, a situação no Cerrado pode exigir um esforço maior devido à alta lucratividade da agricultura industrial nessa região. Para conter a degradação desse bioma, será necessário repensar os incentivos financeiros, como os créditos agrícolas, além de considerar sanções para propriedades privadas que continuam a destruir para cultivar.

Entretanto, há um aspecto mais profundo e duradouro a ser considerado: uma articulação política e territorial fundamentada nos modelos comunitários e nas práticas sustentáveis dos povos indígenas.

A expressão “O futuro é ancestral” ganhou destaque através do pensador Ailton Krenak, o primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em sua obra homônima lançada em 2022, ele transmite uma mensagem otimista ao afirmar que o futuro não precisa ser marcado pelo apocalipse; as soluções para uma convivência harmoniosa neste planeta já estão presentes entre nós. Ao contrário da visão ocidental de progresso que transforma a natureza em meros recursos, o pensamento indígena considera a terra, florestas e rios como entidades vivas, nossos parentes mais antigos neste mundo.

Embora Krenak tenha popularizado essa ideia, o respeito à natureza e ao senso comunitário são características observadas em diversas culturas indígenas. Quando ouvimos líderes como o xamã Yanomami Davi Kopenawa alertarem sobre os perigos da destruição da floresta ao liberar espíritos malignos, fica claro o impacto violento das invasões garimpeiras em seus territórios.

Essa perspectiva única tem implicações diretas para todos nós. A demarcação das terras indígenas — um direito assegurado pela Constituição de 1988 — possibilitou a preservação de vastas áreas dos ecossistemas nativos na Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal até os dias atuais. Estudos científicos demonstram que as áreas sob cuidado indígena estão em condições superiores às terras não demarcadas.

Complementando essas evidências sobre a eficácia das terras indígenas nas estratégias de conservação ambiental, destaca-se uma pesquisa significativa liderada por cientistas do grupo de ecologia tropical do Instituto Serrapilheira, que quantificou a contribuição econômica proporcionada pelas terras indígenas ao agronegócio.

A interligação entre floresta, chuvas e agricultura

Essa interação está diretamente ligada à relação entre florestas e chuvas: a umidade gerada pelos chamados rios voadores sustenta as lavouras localizadas nas regiões Centro-Oeste e Sul do Brasil. Conforme apontado em uma nota técnica divulgada em dezembro de 2024, as chuvas originadas nas terras indígenas amazônicas foram responsáveis por 80% da atividade agropecuária nacional, resultando em R$ 338 bilhões em receita no ano de 2021 — representando 57% do total arrecadado.

Além disso, esses mesmos pesquisadores se uniram a outros especialistas renomados como José Marengo — atual diretor do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais — para publicar um artigo na revista Nature em 2024. O estudo ressalta que as terras indígenas desempenham um papel crucial na prevenção do colapso ambiental na Amazônia conhecido como ponto sem retorno. Uma vez alcançado esse estágio crítico, as florestas deixariam de absorver carbono adequadamente para manter o equilíbrio climático; tornando-se mais secas devido às queimadas frequentes e ao aumento da temperatura, comprometendo assim sua função essencial na produção de chuvas.

Por essa razão, é cada vez mais urgente implementar políticas públicas que reconheçam a relevância das terras indígenas para o bem-estar coletivo da nação. Lula e a ministra Marina Silva já obtiveram sucesso ao criar o Fundo Amazônia em 2008, atraindo recursos internacionais destinados à manutenção e proteção das áreas indígenas.

Contudo, ainda é necessário progredir nos mecanismos voltados ao pagamento por serviços ambientais; atualmente eles ainda estão em fase inicial ou exploram soluções mercadológicas como créditos de carbono.

Reitero meu ponto levantado há algumas semanas sobre como os povos da floresta se uniram contra ideologias extremistas. O sentimento comunitário que historicamente possibilitou lutas políticas pela defesa dos direitos territoriais contra invasores é o mesmo que se mobilizou contra tentativas de entregar o Brasil aos grileiros.

Para saber mais

Já que abordamos hoje o conhecimento indígena, recomendo fortemente a leitura do especial intitulado “Manejo do Mundo”, presente na edição atual da revista piauí e disponível também numa versão interativa ampliada no site da publicação.

Esse trabalho revela como atuam os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAS) nas terras indígenas do Alto Rio Negro. Por meio de diários sobre condições climáticas e observações detalhadas da flora e fauna locais, esses pesquisadores oferecem uma representação abrangente do meio ambiente e suas transformações.

https://piaui.uol.com.br/revista/241/o-manejo-do-mundo/