Segundo turno das eleições definirá rumo da Amazônia
Após os resultados do primeiro turno, especialistas em questões ambientais apontam que o dia 25 de outubro não se limitará a ser um embate final entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro; a votação também representará um plebiscito sobre o destino da Floresta Amazônica.
Carlos Nobre, renomado cientista brasileiro e autoridade em meio ambiente, expressou sua preocupação com o impacto que uma vitória de Flávio poderia ter na Amazônia. “Flávio nega a realidade das mudanças climáticas”, disse ele. “Se ele for eleito, o desmatamento na região certamente aumentará. A situação é extremamente grave.”
O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, está promovendo uma campanha voltada para os interesses do agronegócio, defendendo a desregulamentação. Ele terminou o primeiro turno à frente de Lula por uma margem de 2,2 milhões de votos e prometeu eliminar o desmatamento ilegal até 2029. Contudo, seu plano de governo também propõe um licenciamento ambiental “ágil e moderno”, que visa facilitar investimentos sem obstáculos que impeçam a geração de empregos.
A economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, nos EUA, observa que uma eventual vitória de Flávio poderia replicar o governo de seu pai, caracterizado pelo aumento do desmatamento e pela drástica redução no número de infrações ambientais registradas. Ela destaca que as emissões de carbono na Amazônia quase dobraram entre 2019 e 2020 em comparação com a média dos anos de 2010 a 2018.
“Durante o mandato de Jair Bolsonaro, houve um desmantelamento significativo da fiscalização ambiental. E acredito que isso se repetiria”, afirmou De Bolle.
Embora a Amazônia não tenha direito a voto nas próximas eleições, seu futuro está em jogo. A floresta enfrenta diversas ameaças, como secas, queimadas e exploração madeireira. O Código Florestal permite que proprietários rurais desmatem até 20% das suas terras na Amazônia; no entanto, dados do MapBiomas indicam que cerca de 97% da vegetação nativa suprimida em 2025 apresenta sinais de ilegalidade.
Durante o atual governo Lula, as taxas de desmatamento têm diminuído anualmente. Se o Brasil retornar ao ritmo da administração Jair Bolsonaro, estima-se que a floresta possa perder cerca de 45.600 quilômetros quadrados nos próximos quatro anos; caso as taxas atuais sejam mantidas até 2025, essa perda seria reduzida para aproximadamente 23.000 quilômetros quadrados — área equivalente ao estado de Sergipe.
Os resultados do primeiro turno indicam que os interesses do agronegócio provavelmente influenciaram positivamente a votação para Flávio Bolsonaro. Lula perdeu apoio em quase todos os municípios brasileiros em comparação com seu desempenho nas eleições anteriores. No entanto, segundo informações reveladas por uma pesquisa anterior, nas localidades onde o agronegócio representa mais da metade da economia local, sua votação caiu cerca de oito pontos percentuais — três vezes mais do que nas regiões onde essa atividade não predomina.
Um aumento no desmatamento sob um novo governo pode trazer consequências catastróficas para a Amazônia e para as comunidades locais cuja sobrevivência depende da preservação desse ecossistema. Cientistas vêm alertando há décadas sobre um possível ponto crítico: se uma parte considerável da floresta for derrubada, o ciclo hídrico poderá deixar de sustentar um ecossistema tropical saudável.
Isso resultaria na transformação da região em um ambiente degradado e seco semelhante ao cerrado, provocando emissões líquidas de carbono que acelerariam o aquecimento global e diminuiriam as chuvas necessárias para as plantações nas áreas adjacentes.
O limite considerado crítico varia conforme diferentes fatores e sua estimativa é complexa. Contudo, um dos índices frequentemente mencionado é entre 20% e 25% da cobertura florestal amazônica — intervalo inicialmente sugerido por Nobre e pelo biólogo conservacionista Thomas Lovejoy em 2018.
Ambos argumentaram que “as interações negativas entre desmatamento, mudanças climáticas e uso intensivo do fogo” colocariam a floresta em um ciclo vicioso ao ultrapassar esse limite. Um estudo publicado na revista Nature em maio deste ano sugere que esse ponto crítico pode estar mais próximo dos 22% a 28% em termos de desmatamento considerando as previsões globais de aquecimento entre 1,5 e 1,9 graus Celsius até meados deste século.
Atualmente, cerca de 18% da Amazônia — abrangendo nove países — e aproximadamente 22% da Amazônia brasileira já foram desmatados.
Nico Wunderling é cientista climático na Universidade Goethe de Frankfurt (Alemanha) e liderou o estudo publicado na Nature. Ele estima que se as práticas adotadas durante o governo anterior forem retomadas, cerca de 1% da floresta amazônica poderá ser desmatada ao longo do próximo mandato presidencial. Nesse cenário, “estaríamos entrando na zona crítica por volta do final da década de 2030”, afirmou ele à Grist.
Por outro lado, caso Lula cumpra sua promessa de zerar o desmatamento até os primeiros anos da década seguinte, ainda seria viável evitar uma degradação irreversível segundo Wunderling. Embora as mudanças climáticas exijam esforços globais conjuntos, o desmatamento é “a alavanca mais acessível para reverter essa situação”, ressalta.
A década de 2030 ultrapassa o tempo coberto pela eleição prevista para 2026; mesmo assim, os resultados deste pleito podem impactar decisivamente o futuro da Floresta Amazônica.
Ronaldo Christofoletti é oceanógrafo na Universidade Federal de São Paulo e compara esta situação à aquisição de um seguro automotivo: “Por que pago pelo seguro? Porque posso sofrer um acidente. Quando? Não sei.”
Segundo Christofoletti, a essência desta eleição reside exatamente na forma como enfrentar tal incerteza. “Não esperem milagres dos cientistas”, advertiu ele. “Mas confiem no fato de que estamos cada vez mais próximos desse ponto crítico.”
A campanha do candidato Flávio Bolsonaro não respondeu ao pedido para elaborar comentários sobre este assunto.
Enquanto isso, as organizações ligadas ao agronegócio estão mobilizadas para apoiar Flávio no segundo turno. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou apoio ao candidato do PL, cuja escolha para ministro da Agricultura será determinada pela bancada parlamentar.
Independentemente do resultado das eleições no segundo turno para Flávio Bolsonaro, setores agropecuários já podem considerar-se vitoriosos. Em 4 de outubro passado, o PL conseguiu eleger 121 deputados federais — cifra recorde desde a promulgação da Constituição em 1988. Reportagens indicam uma diminuição na bancada indígena no Congresso enquanto líderes se preparam para uma gestão marcada por retrocessos significativos.
Para os interesses agropecuários isso implica que áreas atualmente protegidas poderão ser abertas à exploração econômica futuramente. “Mesmo se Lula for reeleito”, ponderou De Bolle, “sua posição estará bastante fragilizada.”
