Descubra os segredos da ‘fábrica de bots’ de Fernando Cerimedo e suas implicações para o Brasil.

Descubra os segredos da ‘fábrica de bots’ de Fernando Cerimedo e suas implicações para o Brasil.

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Peço desculpas pela demora na publicação desta coluna. Nos últimos dias, estive imersa nos ataques misóginos que eu e a Agência Pública enfrentamos por parte de Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro. É uma estratégia antiga: atacar quem traz a mensagem em vez de responder ao conteúdo da reportagem. Publicamos uma nota sobre isso e reafirmamos nosso compromisso em continuar investigando as conexões da extrema direita com o exterior. Apoie nosso trabalho aqui.

Para iniciar, trago à tona uma questão que tem me atormentado. Na semana passada, o deputado federal Rui Falcão, do PT, solicitou ao STF que requisitasse os dispositivos eletrônicos encontrados em apartamentos relacionados ao argentino Fernando Cerimedo. Este último é um aliado de Eduardo Bolsonaro e foi preso na Bolívia em 18 de agosto após tentar cometer feminicídio contra sua ex-namorada, a advogada boliviana Nadia Beller.

Falcão defende que Cerimedo, que havia sido investigado por possíveis tentativas de golpe em 8 de janeiro, não foi indiciado devido à falta de evidências. Ele acredita que as informações necessárias podem estar nos equipamentos confiscados pela polícia boliviana.

A promotoria boliviana revelou no final de agosto que fez buscas em cinco propriedades ligadas a Cerimedo, onde foram apreendidos 43 mil dólares, documentos e uma “minifazenda de bots”. Contudo, a defesa do argentino argumenta que os itens eram apenas telefones via satélite e modems, não bots.

Cerimedo desempenhou um papel importante na propagação de boatos sobre fraudes nas urnas durante as eleições de 2022. Sua transmissão ao vivo ocorreu semanas após ele organizar uma viagem de Eduardo Bolsonaro para a Argentina e baseou-se em um dossiê elaborado por Mauro Cid, ajudante de ordens do ex-presidente Bolsonaro. A narrativa falsa afirmava que as urnas eletrônicas fabricadas antes de 2020 utilizavam um código fonte distinto das produzidas posteriormente. Segundo essa versão distorcida, Bolsonaro teria se saído pior nas regiões onde foram utilizadas as urnas mais antigas.

“Nosso pessoal que fez… hahahahah… Isso foi a base do argelino [argentino]”, teria se vangloriado Mauro Cid. Ele também ajudou a divulgar o link da live de Cerimedo mesmo após sua suspensão pelo TSE. “Fizeram um site completo com toda a investigação sobre a maior fraude do século! Nossa equipe é excepcional”, celebrou outro militar, tenente coronel Marques de Almeida, membro do Comando de Operações Terrestres do Exército (Coter). Ambos foram condenados por suas ações durante a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023.

A live mencionada e sua função como coordenador digital na campanha presidencial de Milei na Argentina elevaram Cerimedo à fama internacional entre os grupos da extrema direita da América Latina. O site The Economist o descreveu como “O homem MAGA na América Latina”. Ele confirmou à Pública e outros veículos parceiros que gerenciava muitos “trolls” – contas falsas nas redes sociais programadas para simular interações – com o intuito de manipular algoritmos e melhorar a visibilidade das mensagens que promovia. No entanto, ele negou produzir Fake News.

Entretanto, isso não era necessário; suas transmissões ao vivo e o conteúdo reproduzido pelo site La Derecha Diário – do qual agora tenta dissociar-se – estavam repletos de informações falsas.

Da cama do hospital onde se recupera dos disparos sofridos, Nadia Beller declarou que a tentativa de homicídio ocorreu porque decidiu expor as campanhas manipulativas orquestradas por Cerimedo. Ela também acusou-o de oferecer proteção para voos clandestinos ligados ao narcotráfico.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, ela revelou ainda que Cerimedo mencionou ter utilizado “bots” em favor da candidatura de Jair Bolsonaro nas eleições passadas e afirmou que ele “lutaria por Flávio” nas próximas eleições.

A questão central permanece: qual é o papel real de Fernando Cerimedo na estratégia digital dos Bolsonaro – tanto durante as tentativas golpistas em 2022 quanto na atual campanha eleitoral do Flávio?

Conforme destacou Janaína Figueiredo, Cerimedo não era apenas um especialista em marketing político da direita; ele esteve diretamente envolvido em esforços para desestabilizar governos progressistas e formou alianças com figuras próximas a Trump.

Foi ele quem estabeleceu laços entre Trump e o candidato Asfura através da intermediação com Dick Morris, ex-assessor da campanha presidencial americana em 2017.

Em março de 2025, Fernando Cerimedo foi designado como representante exclusivo na América Latina das empresas Campaign Nucleus e Eyes Over — plataformas especializadas em inteligência artificial criadas após a aquisição da Cambridge Analytica por um grupo investidor norte-americano. Essas ferramentas foram utilizadas na campanha presidencial americana em 2024 para otimizar o gerenciamento dos eleitores. O desenvolvimento ficou sob responsabilidade de Brad Parscale, ex-diretor digital da campanha Trump e sócio anterior de Cerimedo na consultoria digital Numen — embora esta última também esteja tentando se afastar dele atualmente.

Após as condenações impostas a Jair Bolsonaro e outros envolvidos pela tentativa golpista, Eduardo Bolsonaro manteve laços estreitos com Cerimedo — informação confirmada por registros públicos.

Recentemente, há cerca de um mês, os dois apareceram juntos em uma transmissão ao vivo onde Eduardo repetiu exatamente as mesmas alegações sobre hashtags forjadas pelas pessoas ligadas a Marco Cid; como mencionei anteriormente nesta coluna. Durante essa live, Eduardo expressou sua gratidão: “Vou te agradecer aqui por esta transmissão ao vivo; você é uma pessoa corajosa que continua atuando como empresário e analista político argentino”. Por sua vez, Cerimedo saudou o povo brasileiro: “Muito obrigado! Saúdo o povo do Brasil! Muita sorte nas próximas eleições; sempre precisaremos lutar pela liberdade do Brasil”.

Alguns meses antes disso, em fevereiro passado, eles estiveram juntos numa festa hispânica no resort Mar-a-Lago pertencente a Trump. Cerimedo recebeu o prêmio como Melhor Consultor Político Hispano do Ano concedido pela organização Latino Wall Street. Eduardo teve a honra de entregar esse prêmio ao argentino: É uma honra estar aqui abrindo espaço para um argentino; olhem só quem está falando aqui é um brasileiro! Não obstante seu passado ou prisão; isso não importa! Fernando Cerimedo teve coragem suficiente para ajudar o Brasil desde sua terra natal denunciando possíveis fraudes eleitorais ocorridas durante as eleições que resultaram na vitória do socialista Lula da Silva”, afirmou ele completando: “Estamos aqui hoje para dizer aos Alexandre Moraes: não temos medo! Vamos vencer nas eleições deste outubro”.

(Na imagem abaixo está Eduardo junto à esposa de Cerimedo, Natalia Basil. Uma das linhas investigativas da procuradoria boliviana indicava que a suposta namorada estaria grávida — o que poderia ter motivado a tentativa contra sua vida.)

Como já mencionei anteriormente nesta coluna, a narrativa sobre fraudes nas urnas continua sendo um elemento recorrente na campanha eleitoral do Flávio Bolsonaro. Recentemente ele afirmou no Jornal Nacional acreditar que vencerá já no primeiro turno — ecoando uma estratégia similar à utilizada por Jair — criando assim uma justificativa para alegar fraude caso não obtenha êxito novamente.

Cerimedo pode ser peça-chave nessa estratégia junto com Eduardo. Quais serão os desdobramentos sobre as fábricas de bots encontradas na Bolívia? O tempo dirá.

Para finalizar: encerro esta coluna com novas denúncias envolvendo uma possível relação corrupta entre Alexandre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro — este último teria fornecido pelo menos dez milhões de dólares para Flávio Bolsonaro financiar o filme Dark Horse (informações recentes indicam valores ainda maiores). Não tenho tempo suficiente para analisar todos os detalhes agora; porém se forem verdadeiras essas alegações são extremamente graves e devem resultar em consequências legais adequadas.

Ainda assim, espero sinceramente que esses fatos não levem nossa sociedade ao retrocesso quanto à punição histórica aos responsáveis pela tentativa golpista ocorrida em 8 de janeiro deste ano — uma decisão crucial que consolidou nosso regime democrático ao punir pela primeira vez militares golpistas e serviu como exemplo mundial. A condenação dos envolvidos nesse evento foi resultado não apenas do trabalho fundamental realizado por Moraes mas também do esforço conjunto do Supremo Tribunal Federal (STF), da Polícia Federal (PF), da imprensa e da sociedade brasileira que apoiaram essa ação até hoje.