Polymarket ignora restrições e lança apostas em eleições do Brasil

Polymarket ignora restrições e lança apostas em eleições do Brasil

Em uma publicação no Instagram feita em 31 de agosto de 2026, o Polymarket anunciou que “as chances de Flávio vencer a eleição aumentaram”. O post, direcionado ao público brasileiro, foi apresentado em um carrossel com oito imagens que incluíam conteúdos da mídia, memes e um gráfico de previsões da empresa sobre as eleições presidenciais no Brasil.

Ao final do carrossel, um aviso alertava os usuários sobre os riscos envolvidos nas negociações de contratos, além de informar que tais serviços não estão disponíveis em todas as jurisdições e são restritos a maiores de 18 anos. Essa publicação foi realizada em parceria com a conta @opoeteiro, que possui mais de 2,3 milhões de seguidores, mas não ficou claro se se tratava de uma ação publicitária.

Polymarket é uma plataforma de previsão baseada em criptomoedas onde os usuários podem fazer apostas sobre resultados de eventos reais, como eleições e esportes. Desde 24 de abril, a empresa está proibida de operar no Brasil.

Esta é uma das postagens mais diretas do Polymarket, apesar da proibição vigente desde abril. Contudo, não é a única. Até 24 de agosto, o Núcleo registrou 103 publicações relacionadas às eleições brasileiras seguindo um padrão similar, muitas delas colaborativas com páginas de fofoca e influenciadores do setor esportivo.

Há menções a sites associados a aliados do blogueiro bolsonarista e a um portal que recebeu financiamento de uma agência ligada ao Banco Master para ampliar sua visibilidade (detalhes na seção abaixo).

Por que isso importa?

  • Segundo o parágrafo 7 do artigo 6º da Resolução nº 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral, é proibido o uso de plataformas digitais que ofereçam bens ou serviços relacionados a candidatos ou resultados eleitorais. A violação pode ser considerada crime eleitoral.
  • A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, determinou o bloqueio do Polymarket e outros 26 sites por entender que operam sem autorização como intermediárias financeiras.
  • A SPA também solicitou à Anatel o bloqueio dos domínios (como www.polymarket.com) e a indisponibilidade das contas nas redes sociais no Brasil. Enquanto @polymarket está inacessível no Instagram para brasileiros, @polymarketbrasil permanece ativa. O X não faz parte dessa cooperação e ainda permite acesso à página principal do Polymarket.

A FSB Comunicação, uma das principais agências de comunicação do Brasil, começou a assessorar o Polymarket neste ano e confirmou ao Núcleo que a conta @polymarketbrasil pertence à empresa.

Curiosamente, após os questionamentos da reportagem, a conta alterou seu nome para @polymarketportugues no dia 2 de setembro de 2026.

A assessoria não respondeu diretamente sobre as operações da página ou sua relação com outros perfis no Instagram e seus conteúdos publicados.

Em comunicado oficial, afirmaram apenas que o Polymarket não possui equipe no Brasil e se comprometeu com práticas comunicativas transparentes. Também negaram apoio político ou editorial a qualquer candidato ou partido (leia mais na íntegra no final).

Os dados do Instagram indicam que a conta foi criada em 2021 e já mudou seu nome três vezes; porém, os nomes anteriores não foram divulgados. Em 2025, foram feitas apenas quatro postagens relacionadas ao time Corinthians. A partir deste ano novo, o foco mudou para eventos do Polymarket com um aumento significativo na quantidade de postagens em março de 2026 – foram 74 nessa época e mais de cem nos meses subsequentes.

Dos 656 posts analisados até 24 de agosto por nossa equipe, mais da metade abordava temas políticos (nacionais e internacionais), seguidos por esportes (143), atualidades (131) e tecnologia (42) (veja mais sobre a metodologia ao fim deste texto).

Conexão com o Not Journal

A conta mais frequentemente relacionada ao Polymarket no Instagram é @notjournal.ai, pertencente ao site Not Journal, cujo sócio-administrador é Bruno Richards de Souza Figueiredo. Desde abril de 2026 ele se apresenta como funcionário do Polymarket e “country manager” na Rio Innovation Week. Ele co-administra o Not Journal juntamente com Marlon Ceni.

Este site exibe um grande banner com o logo do Polymarket e foi identificado pela Polícia Federal como parte do Projeto DV que envolvia contratos com a agência Mithi para criticar ações do Banco Central em relação ao Banco Master.

Uma reportagem publicada em maio de 2026 revelou que o Not Journal recebeu R$30 mil por mês durante 12 meses para publicações tanto em seu site quanto nas redes sociais em 2025. O perfil tinha como objetivo adotar um tom acadêmico nas suas postagens.

Richards afirmou ao jornal que não houve direcionamento específico sobre conteúdo; as postagens mencionadas foram realizadas por um ex-colaborador. Ele afirmou ainda que o contrato visava exclusivamente “produzir conteúdo relacionado a lifestyle” sem qualquer referência ao banco mencionado ou Daniel Vorcaro. Além disso, revelou que uma proposta da Mithi oferecendo R$5 milhões por parte do capital foi recusada.

No ano anterior, o Not Journal foi mencionado na coluna Guilherme Ravache no Valor Econômico por utilizar conteúdos sem compensação financeira aos veículos tradicionais. O site afirma oferecer “curadoria editorial por meio da inteligência artificial”, enquanto Richards compara sua função à busca no Google devido à atribuição correta dos créditos às fontes originais.

O Not Journal ainda oferece planos pagos para recebimento diário das notícias via WhatsApp entre R$19,90 e R$49,90 ou um dashboard completo pelo valor de R$299,90; porém sem repassar nada aos jornais citados em suas publicações. Algumas postagens creditam informações mas sem fornecer links correspondentes.

O Núcleo tentou contato direto com Bruno Richards e o Not Journal buscando esclarecimentos sobre as interações entre suas publicações e as ações promocionais envolvendo o Polymarket mas não obteve retorno.

Fofoca, futebol, memes e política

Outra conta frequentemente mencionada nos posts relacionados é @ncpjornalismo1, atualmente indisponível desde 31 agosto de 2026; ela contava com mais de um milhão de seguidores. O nome remete ao site No Centro da Política fundado pelo jornalista Hugo Alves dos Santos – associado ao blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio –, procurado pela Justiça desde 2023 sob acusações graves.

A Target DF Jornalismo Ltda., empresa responsável pelo Hora Brasília ligada a Alves dos Santos também requeriu registro da marca No Centro da Política junto ao INPI; ela já atuou como prestadora para vários candidatos em eleições passadas.

Em campanhas anteriores recebeu R$30 mil para trabalhar com Derek Bonjardim (PL), vereador eleito em Atibaia (SP), assim como R$25 mil para Juninho do Hot Dog — suplente na mesma posição pelo mesmo partido. Em outro ciclo eleitoral anterior cinco candidatos desembolsaram juntos R$594 mil; Otoni de Paula representou quase todo esse montante sozinho. A Target DF também obteve R$11 mil na campanha eleitoral da ex-esposa Eustáquio em sua tentativa à Assembleia Legislativa pelo União Brasil no Paraná durante o governo Bolsonaro.

Recentemente foram compartilhadas duas postagens no formato carrossel envolvendo o Jornal Cinforme — um veículo goiano com mais de 683 mil seguidores — abordando as chances eleitorais Renan Santos disfarçadas sob declarações polêmicas quanto à extinção das favelas juntamente com temas internacionais mostrando gráficos relacionados à paz entre Rússia e Ucrânia.

Além desses veículos considerados jornalísticos as colaborações têm se estendido desde junho deste ano para páginas focadas em fofocas e memes tais como:

  • @diferentona (+3,5 milhões);
  • @noticias (+2,6 milhões);
  • @opoeteiro (+2,3 milhões);
  • @teatualizou (+1,6 milhão);
  • @pesmilgrau_ (+1 milhão);
  • @historiailtda (+863 mil);
  • @explica.news (+662 mil);
  • @victor.041 (+627 mil);
  • @brasilleirou (+559 mil);
  • @comentaristaedu (+477 mil);
  • @lancesinesqueciveis (+417 mil);
  • @dezadafutebol (+387 mil);
  • @boleiradaa (+371 mil);
  • @crisao99_ (+366 mil);
  • @samengo (+327 mil).

Nenhuma dessas contas esclarece se houve pagamento pelas publicações compartilhadas — algo obrigatório quando se trata publicidade.

Adicionalmente há uma postagem datada em 12 agosto onde a conta marcou @olavodecarvalho; entretanto esta última não republicou tal conteúdo sobre reconciliar Michelle Bolsonaro com Flávio Bolsonaro nos stories.

Anúncio disfarçado?

Rafael Zanatta diretor da Data Privacy Brasil analisa que essa forma noticiosa utilizada pela conta pode ser uma estratégia para contornar restrições legais existentes. 

“A conta principal está fora do ar enquanto outra subsidiária faz anúncios disfarçados mesmo sem direcionar diretamente pro site”, aponta ele. Isso pode incentivar usuários buscarem acesso através da plataforma visando potencial lucro das apostas colocadas.” 

As estimativas apontam cerca US$141 milhões apostados nas eleições brasileiras até setembro deste ano.

Fernando Neisser professor da FGV expressa que embora essas postagens não façam convites explícitos nem contenham links diretos ou caracterizam-se como pesquisas eleitorais regulares isso exige investigação profunda acerca possível propaganda irregular visando influenciar candidatos. 

“Caso estejam realmente envolvidos numa busca lucrativa estão fazendo isso discretamente pois não há links claros convidando usuários acessarem”, enfatiza ele. 

Verificamos acesso disponível ao site Polymarket mesmo após proibições nos estados do Rio Janeiro Paraná Santa Catarina utilizando VPNs. 

A assessoria da SPA informou que “bloqueios já foram implementados pela maioria dos provedores” após notificação via Anatel “e sendo assim seu funcionamento continua vedado”. 

Sobre contas principais nas plataformas sociais SPA comunicou ter canais específicos junto Meta para relatar situações irregulares relacionadas às apostas promovidas. 

Nota completa do Polymarket:

A Polymarket respeita normas locais reconhecendo importância diálogo técnico institucional regulatório adequado cada jurisdição onde atua tornando-se infraestrutura global mercados preditivos informação traduzindo expectativas coletivas sinais probabilísticos tempo real atuando camada complementar leitura tendências percepções mudança pública.
Não apoiamos candidatos partidos correntes ideológicas nem posicionamos editorialmente sobre eleições existindo mercado divulgação dados resulta endosse resultado político mas sim sinal produzido expectativas participantes.
No Brasil nosso foco reside comunicação institucional educativa responsável alinhada regras locais transparência natureza categoria evitando promoção transacional.
Em relação parcerias campanhas influenciadores conteúdos específicos preferimos não comentar casos isolados enfatizando compromisso práticas comunicação transparentes responsáveis.

Metodologia:

As informações coletadas através navegador automatizado abrangendo publicações realizadas entre janeiro até agosto destacando data tipo conteúdo métricas disponíveis formando banco PostgreSQL armazenando dados relevantes.

Categorias levantadas manualmente incluem política incluindo ações governamentais eventos políticos nacionais internacionais eleições brasileiras esportes tecnologia atualidades judiciário propaganda quando refere-se própria plataforma.