Leilão Invertido’: Triunfo de Flávio Fortaleceria a Influência Americana no Brasil

Leilão Invertido’: Triunfo de Flávio Fortaleceria a Influência Americana no Brasil

Faltando apenas duas semanas para o segundo turno das eleições no Brasil, Robert Kennedy Jr., ex-secretário de Saúde dos EUA e figura proeminente do movimento antivacina, fez uma visita ao Rio de Janeiro para celebrar o casamento de seu filho, Conor Kennedy. A cerimônia uniu Conor à cantora Giulia Be, que mesmo tendo manifestado apoio a Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, é parte da família Marinho, próxima aos Bolsonaro. Paulo Marinho, seu pai, foi um dos principais articuladores da campanha de Jair Bolsonaro em 2018 e atualmente é suplente de Flávio Bolsonaro no Senado.

A festa matrimonial ocorreu na Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, localizada no centro carioca, um local histórico onde Dom Pedro I e Dom Pedro II foram coroados. A celebração foi marcada por grande ostentação e recebeu atenção da mídia internacional.

Uma semana após o evento nupcial, em São Paulo, apoiadores de Flávio Bolsonaro exibiram um míssil inflável com a frase “Trump nuke Brazil” (Trump, faça um ataque nuclear ao Brasil), evidenciando a subserviência ao governo Trump.

Esses dois acontecimentos ilustram a crescente aliança entre a extrema direita brasileira e a norte-americana. Caso Flávio Bolsonaro vença as eleições, isso pode sinalizar uma afirmação da Doutrina Monroe, que visa restaurar a influência dos EUA sobre a América Latina, conforme analisa o cientista político Guilherme Casarões, da Florida International University.

“A Doutrina Monroe original do século XIX tinha como objetivo proteger o continente americano dos interesses europeus e garantir a hegemonia dos Estados Unidos. O que Trump busca fazer agora é revitalizá-la com novas características que vão além do poder militar e das relações comerciais; envolve também a formação de uma aliança ideológica nas Américas”, explica Casarões.

Terras raras: do fundo do poço para o bolso de Trump Jr.

Em abril passado, André Marinho, irmão da noiva do casamento carioca, esteve nos Estados Unidos em encontro com o vice-presidente J.D. Vance. A reunião foi organizada por Robert Kennedy Jr. e abordou temas como a expansão do crime organizado no Rio de Janeiro e suas ligações com redes internacionais de facções criminosas.

Desde então, diversas conexões entre os EUA e o bolsonarismo têm surgido em preparação para as eleições de 2026. Isso inclui desde planos para abrir uma filial brasileira da Rockbridge — rede de financiadores da extrema direita criada por Vance — até o financiamento do filme “Dark Horse” por meio de um fundo estabelecido no Texas.

Um documento elaborado por André Marinho destaca as possíveis vantagens que uma administração Flávio Bolsonaro traria para os interesses econômicos da família Trump. O “Prosperity Partnership”, redigido pelo irmão da noiva, sugere como os EUA poderiam explorar terras raras — elementos químicos fundamentais na fabricação de ímãs potentes utilizados em turbinas elétricas e armamentos — em um eventual novo governo de extrema direita no Brasil.

Revelado pelo jornalista Guilherme Amado, esse plano foi criado em março deste ano, aproximadamente duas semanas antes da viagem de Marinho aos EUA para se encontrar com Vance. Em resposta às críticas, Marinho negou qualquer conexão entre o documento intitulado “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign” e a campanha bolsonarista.

O “Prosperity Partnership” afirma que um governo sob Flávio Bolsonaro “posicionará o Brasil como principal fornecedor e centro de processamento de minerais críticos alinhado aos interesses ocidentais”; evitará que o país se torne “dependente” das cadeias produtivas chinesas; e buscará “alinhamento com os Estados Unidos na criação de um sistema alternativo de abastecimento”. O texto ainda menciona uma expectativa por “agilização dos processos regulatórios”, alinhada ao discurso eleitoral de Flávio sobre licenciamento técnico e rápido.

Quando contatado pela reportagem, Marinho afirmou que o tema estava encerrado por não haver implicações práticas. Ele acrescentou que a elaboração do estudo foi uma iniciativa pessoal sem relação com propostas oficiais ou solicitações de campanhas ou autoridades americanas.

Marinho também esclareceu que não apresentou o material à campanha de Flávio Bolsonaro ou a autoridades ou entidades dos EUA e reiterou que seu encontro com Vance não tinha qualquer ligação com esse estudo.

Acesso facilitado a recursos naturais

As propostas apresentadas por Marinho estão alinhadas aos princípios econômicos da Doutrina Monroe, que defende um acesso facilitado dos EUA aos recursos naturais na América Latina.

Essa doutrina já tem sido aplicada com sucesso por Trump na Venezuela. Após intervenções militares naquela nação vizinha, empresas americanas conseguiram firmar contratos para exploração petrolífera; em agosto deste ano, os EUA anunciaram um acordo permitindo àquelas empresas extrair petróleo em 17 campos venezuelanos pelos próximos 100 anos.

Na Argentina, uma nova legislação proposta pelo presidente Javier Milei revogou restrições à aquisição de terras por estrangeiros. Apesar das reações populares contrárias à medida e das disputas judiciais subsequentes, a Suprema Corte inicialmente confirmou essa decisão antes de reverter sua posição posteriormente.

O desequilíbrio existente entre os Estados Unidos e países latino-americanos gera incertezas sobre como será feita a exploração dos recursos naturais sob uma possível intensificação da Doutrina Monroe. Casarões alerta que se Flávio conquistar a vitória nas eleições haverá uma tendência preocupante na América do Sul — especialmente Brasil e Argentina — onde países podem entrar numa corrida desleal para oferecer mais concessões aos EUA.

O fundo 1789 Capital, co-dirigido por Donald Trump Jr., já investiu na Vulcan Elements nos Estados Unidos, empresa vinculada ao Projeto Caldeira para exploração de terras raras localizadas no sul de Minas Gerais.

Além disso, outra empresa envolvida neste projeto é a australiana Meteoric Minerals. Ela firmou um memorando com a canadense Ucore para garantir investimentos do Departamento de Defesa americano visando criar uma planta dedicada à separação desses elementos químicos valiosos.

Milícia e mortes de crianças

A afinidade entre Trump e as táticas bolsonaristas contra o tráfico se torna evidente quando observamos eventos recentes. Em maio deste ano, logo após Flávio se encontrar com Trump na Casa Branca, o governo americano classificou as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho como organizações terroristas; essa ação é vista como uma importante conquista atribuída ao deputado brasileiro.

Entretanto, as ligações entre Flávio Bolsonaro e milícias armadas permanecem fora das discussões sobre segurança pública promovidas pela extrema direita. Ele defendeu publicamente ações policiais que resultaram na morte da menina Ana Clara durante uma operação policial em Niterói (RJ) em 2021; além disso, justificou também outro caso trágico envolvendo Tamir Rice nos EUA — um garoto cuja morte ocorreu enquanto brincava com uma réplica armada em Cleveland em 2014.

“Os policiais abordaram aquele menor armado; ele puxou sua arma apontando-a para eles; era esperado que reagissem”, declarou durante discurso na Assembleia Legislativa do Rio em 2007.

“A imprensa brasileira critica isso porque resultou na morte infantil; mas quem não lamenta? E se fosse uma arma verdadeira?”, completou ele na mesma ocasião.

O Brasil integra o Escudo das Américas — aliança formada por pelo menos 13 países sob liderança estadunidense desde março deste ano — cujo objetivo é enfrentar crimes organizados na região através da colaboração militar entre aliados próximos ao governo Trump.

Em outubro último, informações divulgadas pelo The New York Times indicaram que os EUA começaram a enviar tropas para treinar forças locais contra narcotraficantes na América Latina; há presença militar americana confirmada em países signatários dessa aliança como Panamá, Colômbia e Equador.

Casarões destaca ainda a contradição presente nas atitudes bolsonaristas relacionadas ao intervencionismo norte-americano frente à defesa tradicional da soberania nacional:

“Após o golpe militar em 1964 até mesmo os militares enfrentavam dificuldades para aceitar qualquer tipo de presença ou ingerência militar americana no Brasil. Os tempos atuais forçam os membros da família Bolsonaro a agirem contraditoriamente ao legado militarista que supostamente defendem.”

Agendas espelhadas no Legislativo

No novo Congresso brasileiro eleito recentemente no primeiro turno eleitoral algumas figuras destacadas apresentam pautas semelhantes às propostas trumpistas observadas nas campanhas eleitorais nos Estados Unidos marcadas para novembro próximo; essas eleições renovarão integralmente a Câmara dos Deputados americana junto à eleição de 35% do Senado daquele país.

Eduarda Campopiano (PL), deputada estadual mais votada em São Paulo nega existência do feminicídio. Lucas Pavanato (PL), representante federal mais votado pelo mesmo estado optou por pautar questões ligadas ao medo moral associado ao uso dos banheiros trans assim como Nikolas Ferreira (PL) reeleito com expressivos mais três milhões votos na Câmara Federal.

Nos Estados Unidos debates sobre atletas transgêneros bem como tratamento relacionado à transição sexual infantil fazem parte das agendas morais defendidas por diversos candidatos conservadores. Uma pesquisa realizada pela ONG FactCheck.org vinculada à Universidade da Pensilvânia revelou gastos superiores a US$ 100 milhões somente pelo Partido Republicano relacionados à divulgação dessas pautas desde agosto passado; somente nas disputas eleitorais pelo Senado esses valores ultrapassaram US$ 77 milhões.