Que a injustiça te inspire à ação, e não à tristeza
Nos últimos dias, aproximadamente 500 mil pessoas saíram às ruas na França em manifestações que tiveram início com pedidos de mudanças no sistema educacional e rapidamente se transformaram em exigências sociais mais amplas, impactando também outros países europeus.
As mobilizações começaram em setembro, quando estudantes bloquearam o acesso a uma escola na área de Paris, reivindicando mais investimentos para a educação. O movimento rapidamente ganhou força, com alunos de diversas instituições se juntando à causa, resultando em protestos por todo o território francês. As demandas foram além do aumento no número de professores e recursos, incluindo melhorias nas instalações escolares. A insatisfação geral se manifestou também contra o elevado custo de vida, a deterioração dos serviços públicos e a condução do governo.
O governo francês relatou incidentes de violência, destruição de bens públicos e incêndios. Mais de 6,8 mil indivíduos foram detidos pelas autoridades, sendo que mais de 5 mil eram menores de idade.
Essas manifestações na França geraram eco em países como Itália, Albânia e Portugal.
Na Grécia, estudantes têm protestado contra o aumento do custo de vida e das mensalidades escolares. Já na Espanha, os professores estão exigindo salários melhores. Estudantes albaneses têm se manifestado devido às precárias condições nas universidades e à falta de apoio financeiro no ensino superior. Em Portugal, as reivindicações também incluem a redução das taxas universitárias.
Na Argentina, milhares de alunos e docentes realizaram um ato na última quinta-feira, 15 de outubro, em oposição ao governo liderado por Javier Milei.
No Brasil, esse fenômeno de mobilização encontra seu paralelo. “Estamos nas ruas contra a extrema direita e tudo que ela representa como retrocesso para o nosso país”, declarou Gutemberg Rodrigues, vice-presidente da União Nacional dos Estudantes, em entrevista ao programa Pauta Pública. Desde 5 de outubro, atos espontâneos têm ocorrido em várias partes do país, principalmente em apoio à reeleição de Lula, reunindo milhares de manifestantes.
É inspirador ver os estudantes ocupando espaços públicos; o Brasil possui momentos históricos marcantes nesse aspecto – desde a Passeata dos Cem Mil durante a ditadura militar em 1968 até o movimento pelo Passe Livre em 2013 e as ocupações escolares por parte dos secundaristas em São Paulo em 2015.
Em um contexto onde tanto está em jogo para o futuro do país nas próximas eleições que se aproximam rapidamente, é comum ouvir que a juventude está se radicalizando à direita ou que há uma apatia entre os jovens da geração Z. Há preocupações sobre a perda do pensamento crítico e da conexão com pautas coletivas da esquerda. Contudo, essa onda juvenil global traz um alívio para aqueles que estão cansados.
Que essa mobilização estudantil no Brasil e no mundo nos sirva como fonte de inspiração e nos dê energia neste período final antes do segundo turno. Estamos lidando com muitas preocupações; nossos corações estão pesados e a sensação é que podemos esgotar nossas forças a qualquer momento.
Além disso, que essa motivação perdure além das eleições; a luta não termina após a contagem dos votos, independentemente do resultado.
Uma frase marcante criada pelo artista mexicano Enrique Cedillo para o Partido Comunista Mexicano sempre me vem à mente: “Que a injustiça não te entristeça; que te radicalize”.
